quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Personalidade: Anatoliy Grigorievich Isachenko

Fonte: sbpu.ru
Anatoliy Grigorievich Isachenko (1922-) é professor emérito da Universidade Estatal de São Petersburgo, tendo sido agraciado como Trabalhador Honrado da Ciência da Federação Russa (1999), prêmio nacional concedido a cientistas de mérito extraordinário.

Seu trabalho tem sido reconhecido principalmente no âmbito da Regionalização Físico-Geográfica, a área da Geografia que se ocupa com a diferenciação e estudo de geossistemas regionais. Seu trabalho mais notável trata da Ciência da Paisagem e Regionalização Físico-Geográfica, publicado inicialmente em 1966 (em russo) e traduzido para o inglês em 1973, contando com uma nova edição em 1991.

A referida obra apresenta uma introdução ao que tem sido chamado no Brasil de Geoecologia e ou Geografia Física Integrada. O destaque vai para seu esquema para determinação de geossistemas regionais, que tem sido amplamente aceito na Rússia e países da antiga União Soviética e que, infelizmente (e principalmente por causa do idioma) é pouco conhecido em nosso país.

Dentre as tentativas para divulgar o trabalho de A.G. Isachenko, principalmente seu sistema taxonômico de unidades (SUT), destacamos o livro de Rodriguez, Silva e Cavalcanti (2004) e a minha dissertação (CAVALCANTI, 2010).

Em um dos livros da série ‘Mundo Natural’ intitulado ‘Paisagens’ Isachenko e Shliapnikov (1989) apresentam uma tipologia de paisagens do mundo, agrupadas em pouco mais de 600 grupos, incluindo as paisagens da América do Sul (Cf. CAVALCANTI, 2013).


Referências
CAVALCANTI, L. C. S. Da Descrição de Áreas à Teoria dos Geossistemas: uma Abordagem Epistemológica sobre Sínteses Naturalistas. Tese (Doutorado em Geografia). Recife: UFPE. 2013. 217p.

CAVALCANTI, L. C. S. Geossistemas do Estado de Alagoas: uma contribuição aos estudos da natureza em geografia. Dissertação (Mestrado em Geografia). Recife: UFPE. 2010. 132p.

ISACHENKO, A.G. Ciência da Paisagem e Regionalização Físico-Geográfica. Moscou: Vyshaya Shkola. 1991. 370p. Em russo.

ISACHENKO, A.G. Principles of Landscape Science and Physical Geographic Regionalization. Melbourne: MUP. 1973. 311p.

ISACHENKO, A.G.; SHLIAPNIKOV, A.A. Paisagens. Moscou: MISL. 1989. 504p. Em russo.

RODRIGUEZ, J.M.M.; SILVA, E.V.; CAVALCANTI, A.P.B. Geoecologia das paisagens: uma visão geossistêmica da análise ambiental. 2.ed. Fortaleza: Edições UFC. 2004. 222p.

Hierarquia de Geossistemas (Parte 3) - Cinturões, Zonas e Subzonas

Continuando a série sobre a hierarquia de geossistemas, vamos apresentar agora as unidades físico-geográficas zonais, que são aquelas de grandes dimensões territoriais e definidas com base em critérios climáticos.

A epigeosfera esta dividida primordialmente em cinturões físico-geográficos ou cinturões naturais, que recebem este nome porque atravessam o planeta de um lado a outro (com exceção das manchas equatoriais). Estes compreendem as maiores divisões do geossistema planetário e surgem em função da associação entre o geóide (forma da Terra) e o regime de radiação solar, através da circulação atmosférica global. Um dos modelos mais utilizados de Cinturões Naturais é aquele proposto com base na classificação climática de Boris P. Alisov e são os seguintes: Ártico, Antártico, Subártico e Subantártico, Temperado (setentrional e meridional), Subtropical (setentrional e meridional), Tropical (setentrional e meridional), Subequatorial (setentrional e meridional) e Equatorial (ver figura 1).
Figura 1. Cinturões Físico-Geográficos com base em Alisov.


Como sabemos, o regime de radiação solar influencia largamente a circulação atmosférica global, resultando assim numa distribuição diferencial da umidade e do calor, que, por sua vez, afetam diretamente a distribuição do intemperismo, dos processos erosivos e dos processos ecológicos. Assim, diferentes regimes termopluviométricos provocam variações nas paisagens detro dos cinturões naturais. Estas unidades são chamadas de zonas físico-geográficas (ou zonas naturais) e, caso haja diferenças entre elas, como em função da variação gradativa no regime de pluviosidade e/ou de temperatura, são identificadas subzonas físico-geográficas (subzonas naturais) (ISACHENKO, 1991).

Estas zonas e subzonas num sentido geral (lato sensu) influenciam bastante os processos geoecológicos gerais e, por isso são denominadas conforme o padrão geral da paisagem que é dependente do regime climático, ou seja, os biomas. Assim, as Zonas (lato sensu) recebem nomes como "Savana Subequatorial" ou "Savana Tropical", enquanto uma Subzona (lato sensu) de destaque para nós do GT-Paisagem são as "Savanas Secas Subequatoriais", dentre as quais se destaca as Caatingas.

Um mapa das unidades zonais (cinturões, zonas e subzonas) pode ser encontrado na figura 2.
Figura 2. Zonas, Subzonas e Faixas Altitudinais
Fonte: Academik.ru


No próximo post vamos falar um pouco das 'unidades azonais' ou seja, aquelas resultantes dos processos geológicos e geomorfológicos na paisagem.

Referências
ISACHENKO, A.G. Ciência da Paisagem e Regionalização Físico-Geográfica. Moscou: Vyshaya Shkola. 1991. 370p. Em russo.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O que são geossistemas?

Em outro momento já apresentamos, de forma geral, os princípios da teoria dos geossistemas. A partir de agora vamos tentar explicar de forma simples o que eles significam e ajudar o leitor a entender um pouco mais sobre a geoecologia e seus objetivos.

Inicialmente um geossistema foi definido como uma “unidade natural de todas as categorias possíveis, do geossistema planetário (envelope geográfico ou ambiente geográfico em geral) ao geossistema elementar (fácies físico-geográfica)”  (SOCHAVA, 1963, p.53. Tradução nossa).

De modo mais preciso, um geossistema é definido como "uma dimensão do espaço terrestre onde os diversos componentes naturais encontram-se em conexões sistêmicas uns com os outros, apresentando uma integridade definida, interagindo com a esfera cósmica e com a sociedade humana" (SOCHAVA, 1978, p.292. Tradução nossa).

Assim, podemos dizer que um geossistema possui é um arranjo espacial ("apresentando uma integridade definida") que está apresenta um funcionamento definido ("conexões sistêmicas"). Um geossistema é uma configuração, mas também um conjunto de processos em curso.

Desta forma, um geossistema ainda é considerado um sistema dinâmico, aberto e hierarquicamente organizado (SOCHAVA, 1977). Isso significa que ele troca matéria e energia com o seu entorno (sistema aberto e hierarquicamente organizado) e que o regime dessas trocas muda com o tempo (sistema dinâmico). Parece difícil, mas você vai ver que não é.

Ok. Então já sabemos que os geossistemas se caracterizam por um padrão espacial de processos em curson uma determinada porção do planeta. O que a geoecologia busca entender é como os padrões espaciais influenciam os processos naturais e como os processos influenciam os padrões espaciais. mas antes de chegarmos a essas respostas precisamos saber:

Como identificar estes padrões espaciais?

Os geossistemas são identificados pela observação de atributos da natureza (relevo, solos, vegetação, regime de drenagem, etc.) e seguindo-se alguns princípios gerais. Um destes princípios é o da circulação de substâncias (como água, nutrientes e minerais, por exemplo). Assim, sempre que forem detectadas diferentes condições homogêneas para circulação de substâncias, aí poderemos traçar os limites dos geossistemas.

Mas como identificar estas condições?

É simples! A circulação de água, nutrientes, minerais e elementos químicos está condicionada a fatores como o clima, a declividade, orientação e forma do relevo, o regime de drenagem do substrato e outros atributos naturais. Por exemplo, uma área de topo plano, com textura arenosa e que recebe água apenas da chuva vai possuir um regime de circulação de substâncias diferente de uma área de baixada em que a água tende a se acumular em função da proximidade do nível freático (Figura 1).


Figura 1. Diferentes condições locais para circulação de substâncias.

Fonte: o autor.

Não apenas em escala local podemos identificar condições para circulação de substâncias. Em escala regional, podemos indicar outros fatores importantes que podem e tem sido utilizados como indicadores dos limites dos geossistemas, a saber: a continentalidade, os climas regionais, a altitude e a circulação vale-montanha.

Em escala planetária, podemos destacar os movimentos orbitais da Terra, o regime de radiação solar global, a tectônica de placas e a circulação atmosférica global.

Deste modo, podemos entender porque os geossistemas possuem dimensões diferentes e porque eles estão organizados numa hierarquia onde a maior unidade (geossistema planetário) é a própria superfície terrestre e a menor pode ser uma encosta simples.

Em outra série de postagens trataremos da hierarquia de geossistemas e os critérios de sua distinção.

De outro modo, ainda podemos refletir que diferentes condições de circulação de substâncias compõem geossistemas com características distintas. Por exemplo, uma diferença climática é capaz de gerar paisagens completamente diferentes. Onde um clima mais úmido geraria paisagens com um metabolismo mais intenso, dando origem a solos profundos, relevo ondulado e florestas densas, enquanto um clima mais seco resultaria em geossistemas de solos rasos, relevo aplainado e vegetação xerófila arbustiva.

Além disso, podemos dizer que cada geossistema é autônomo, ou seja, possui um regime de funcionamento definido, mas que não é isolado dos geossistemas do entorno.


Em resumo podemos afirmar que:
  • Os geossistemas são unidades naturais com uma dimensão geográfica qualquer;
  • São áreas que se definem por um regime particular de circulação de substâncias;
  • Eles podem ter qualquer dimensão, do sopé de uma encosta até o geossistema planetário;
  • Todo e qualquer geossistema é parte de uma entidade maior (a superfície terrestre);
  • Geossistemas se organizam de modo hierárquico;
  • As diferenças na circulação das substâncias garantem uma variedade de geossistemas;
  • Cada geossistema é autônomo, mas nenhum possui um funcionamento isolado;

Referências

SOCHAVA, V.B. Algumas noções e termos da Geografia Física. Relatórios do instituto de Geografia da Sibéria e do Extremo Oriente. 3. 1963. p.50-59.

SOCHAVA, V.B. Introdução à Teoria do Geossistema. Novasibéria, Nauka, 1978. 320p. Em russo.

SOCHAVA, V.B. O estudo de geossistemas. Métodos em questão, n.16, IG-USP. São Paulo, 1977. 51 p.

Hierarquia de Geossistemas (Parte 2) - Unidades Zonais, Azonais e Derivadas

Quando falamos de geossistema no Brasil, logo lembramos do modelo de unidades naturais que o francês Georges Bertrand publicou em 1968: Zona, Domínio, Região Natural, Geossistema, Geofácies, Geótopo, representando uma hierarquia de unidades naturais com dimensões descrescentes, respectivamente. Assim, as Zonas são maiores (ex.: Zona Tropical) e cada uma delas contém uma sorte de Domínios e, cada um destes contém uma gama de Regiões Naturais e assim por diante.

Em 1978, Bertrand revoga este sistema de unidades naturais em favor daquele proposto por Sochava (Sobre isso VEJA AQUI).

Neste post apresentamos a hierarquia das unidades naturais do modelo russo-soviético. Este modelo foi iniciado por Dokuchaev e aprimorado sucessivamente por outros autores como Berg, Ramenski, Solntsev e Isachenko.

Rodriguez, Silva e Cavalcanti (2004) fazem menção a estas unidades em seu livro Geocologia das Paisagens (Cf. p.72). Em outras oportunidades também apresentamos com certo detalhe estas unidades (Cf. CAVALCANTI, 2010; 2013), cuja descrição reproduziremos a seguir.

Seguindo a tradição de Dokuchaev, as paisagens naturais são vistas como resultado da ação de fatores cósmicos (movimentos orbitais) e atmosféricos (clima). Ao mesmo tempo, também influenciam fatores de ordem geológica e geomorfológica.

Considerando isto, Isachenko (1973; 1991) defende que as paisagens de dimensões regionais e planetárias podem ser identificadas a partir dos seguintes passos: 

1. Diferenciação de áreas com base em elementos cósmicos e atmosféricos (radiação solar global, precipitação, índice de umidade, índice de continetalidade, etc.);

2. Diferenciação de áreas com base em elementos geológicos e geomorfológicos (morfoestruturas de várias ordens);

3. Cruzamento das Unidades definidas nos passos 1 e 2.

Observação 1: as unidades do passo 1, foram chamadas por Isachenko de Zonais, porque geralmente apresentam um padrão associado à distribuição latitudinal, sobretudo em função do regime de radiação solar e da circulação atmosférica global. De outro modo, as unidades do passo 2, são chamadas de Azonais, pois seu padrão independe da influência cósmica-atmosférica, estando relacionadas à tectônica, denudação e sedimentação. Por fim, as unidades do passo 3 são denominadas de 'Unidades Derivadas', por motivos óbvios.

Observação 2: o processo de identificação e classificação das unidades zonais, azonais e derivadas, foi chamado por Isachenko de "Regionalização Físico-Geográfica".

Observação 3: as unidades derivadas contemplam apenas os geossistemas de dimensões regionais. Aqueles de dimensões locais são definidos por outros critérios.

UNIDADES RECONHECIDAS
A unidade maior, ou geossistema planetário, é denominada de epigeosfera (Cf. Aqui).

As seguintes unidades zonais são identificadas: Zona (lato sensu) e Subzona (lato sensu), Setor (lato sensu) e Subsetor (lato sensu).

As unidades azonais são as seguintes: Continente, Subcontinente, País, Domínio e Subdomínio.

As unidades derivadas são: Zona (stricto sensu), Subzona (stricto sensu), Setor (stricto sensu), Subsetor (stricto sensu), Província, Subprovíncia, Distrito e Subdistrito.

Por fim, as seguintes unidades locais são reconhecidas: Paisagem, Localidade, Trato, Subtrato e Fácies.

SISTEMA TAXONÔMICO
O Sistema Taxonômico de Unidades foi proposto por Isachenko em 1966 e é determinado da seguinte forma:

O cruzamento entre uma Zona (lato sensu) e um País Físico-Geográfico resulta na indicação de uma Zona (stricto sensu). Por exemplo a Zona da Taiga, cruzada com o País Físico-Geográfico da Planície Russa resulta a seguinte Zona (stricto sensu): Taiga da Planície Russa. Não é difícil entender. Na verdae é bem lógico, a paisagem ão é composta apenas de elementos bióticos influenciados pelo clima (biomas), mas é também o produto da geomorfologia e geologia.

Figura 1. Sistema Taxonômico de Unidades Simplificado.
Fonte: adaptado de Isachenko (1973, p.249 e; 1991, p.301).

Ocasionalmente, poderia ser necessário um esquema incluindo os subomínios, subdistritos e distritos (fig. 2):

Figura 2. Sistema Taxonômico de Unidades Expandido.
Fonte: baseado em Isachenko (1991, cf. texto da p.303).


Por fim, a figura 3 apresenta um exemplo para o semiárido brasileiro, construído na minha dissertação de mestrado:
Figura 3. Taxonomia de Geossistemas Regionais para uma porção do Semiárido Alagoano.
Fonte: adaptado de Cavalcanti, 2010.

As setas indicam os cruzamentos que deram resultaram na identificação das unidades derivadas (geossistemas regionais). As linhas pontilhadas indicam a subordinação hierárquica das unidades zonais e azonais e derivadas.

Nas postagens seguintes iremos descrever cada uma das unidades taxonômicas e os procedimentos para a sua identificação.

Referências
BEROUTCHACHVILI, N.L. e BERTRAND, G.. Le Géosystème ou Système territorial naturel. Revue Géographique des Pyrénés et du sud-ouest. Toulose. 1978. p. 167-180.

BERTRAND, G. Paysage et géographie physique globale: esquisse méthodologique. Revue géographique des Pyrénées et sud-ouest, v. 39, fasc. 3, 1968. p. 249-272.

CAVALCANTI, L. C. S. Da Descrição de Áreas à Teoria dos Geossistemas: uma Abordagem Epistemológica sobre Sínteses Naturalistas. Tese (Doutorado em Geografia). Recife: UFPE. 2013. 217p.

CAVALCANTI, L. C. S. Geossistemas do Estado de Alagoas: uma contribuição aos estudos da natureza em geografia. Dissertação (Mestrado em Geografia). Recife: UFPE. 2010. 132p.

ISACHENKO, A.G. Ciência da Paisagem e Regionalização Físico-Geográfica. Moscou: Vyshaya Shkola. 1991. 370p. Em russo.

ISACHENKO, A.G. Principles of Landscape Science and Physical Geographic Regionalization. Melbourne. 1973. 311p.

RODRIGUEZ, J.M.M.; SILVA, E.V.; CAVALCANTI, A.P.B. Geoecologia das paisagens: uma visão geossistêmica da análise ambiental. 2.ed. Fortaleza: Edições UFC. 2004. 222p.