domingo, 12 de janeiro de 2014

Paisagem: Forma, Estética e Ecologia

A palavra paisagem tem um lugar bastante especial na geografia brasileira. Nos Parâmetros Curriculares Nacionais da área de Geografia a palavra é mencionada 232 vezes no singular, no plural (paisagens) ou como adjetivo (paisagístico). No documento que apresenta a área de Geografia para o ensino fundamental, o termo é usado 162 vezes. Trata-se de uma importante categoria de análise da referida disciplina, mas, qual é mesmo o significado que o termo tem na Geografia?

Em sua obra Metamorfoses do Espaço Habitado, Milton Santos (2008, p.67-68) dedica um capítulo inteiro à conceituação do termo, definindo-o da seguinte maneira: "Tudo o que nós vemos, o que a nossa visão alcança, é a paisagem. Esta pode ser definida como o domínio do visível, aquilo que a vista abarca. É formada não apenas de volumes, mas também de cores, movimentos, odores, sons, etc."

Um pouco adiante, o mesmo autor dá pistas sobre a filiação teórica de sua concepção sobre a paisagem, quando cita o geógrafo francês Max Sorre que afirmava ser a paisagem apenas a expressão corpórea do fenômeno geográfico.

Seguindo esta linha teórica, a paisagem abrange uma dimensão essencialmente estética e, portanto, ligada à percepção. Para o referido autor, só através da consideração do conteúdo da dinâmica social é que a paisagem passa a ser vista como espaço (SANTOS, 2001, p.46).

Contudo, esta não é a única linha teórica que define o conceito de paisagem dentro da geografia. 

De outro modo, Rodriguez, Silva e Cavalcanti  (2004, p.18) afirmam que uma paisagem "é definida como um conjunto inter-relacionado de formações naturais e antroponaturais (...)", afirmando que a mesma possui, além de uma estrutura (forma e arranjo espacial), um conteúdo dinâmico e evolutivo.

Os mesmos autores ainda definem paisagem natural como sinônimo de geossistema (RODRIGUEZ, SILVA, CAVALCANTI, 2004), que se trata de uma categoria de sistemas abertos, dinâmicos e hierarquicamente orgaizados (SOCHAVA, 1977).  

Ora, percebe-se uma diferença entre as duas conceituações. Para Santos, a paisagem é uma aparência, mas para Rodriguez, Silva e Cavalcanti ela possui sim um conteúdo dinâmico, geoecológico e cultural. 

Qual destas definições estaria correta? ou ambas estão?

Estas diferentes concepções resultam de tradições distintas do pensamento geográfico, compondo sistemas teóricos diferenciados. Deste modo, fica difícil dizer qual dos dois está correto a menos que se proceda uma abordagem historiográfica, em busca das raízes conceituais.

Neste sentido, o trabalho de Barros (2006) nos aponta um caminho quando, comentando as relações entre os termos 'paisagem' e 'região' na história da geografia, verifica que, não raras vezes os termos permutaram significado.

Isto fica mais claro quando Bernardus Varenius (1712) define suas regiões da terra (Regionum Teluris) como sendo caracterizada por propriedades específicas de uma determinada porção do nosso planeta. E é bem entendido quando tomamos conhecimento da afirmação de Besse (2006), para quem o termo landschaft (equivalente alemão do nosso termo paisagem) era usado na antiga alemanha para indicar uma área que se diferenciava pelo conjunto de suas características.

De certo que a concepção estética de paisagem ganhou vulto através da pintura, sobretudo no Renascimento europeu. Neste sentido, Besse (2006) destaca o trabalho de Pieter Bruegel, renomado pintor holandês, que transmitiu uma concepção essencialmente estética da paisagem. Aliás, foi através da pintura que se divulgou a ideia da paisagem como 'aquilo que a vista alcança'.

Contudo, Besse (2006) ainda destaca que a concepção pitoresca de paisagem era parte, mas não o todo, da dimensão que o referido conceito tinha dentro da geografia. Destacando as conceituações de paisagem em Humboldt e La Blache, que tratavam a mesma não apenas como um elemento estético, mas como um complexo cuja aparência era apenas um componente.

É neste sentido que surge o conceito de morfologia da paisagem, como estudo da composição, forma e arranjo espacial das paisagens, associado às ideias de dinâmica e evolução das paisagens. Esta concepção teve um amplo desenvolvimeto na geografia russo-soviética, bem como na Alemanha oriental, China, Japão e países influenciados pela antiga União Soviética (RODRIGUEZ, SILVA, CAVALCANTI, 2004; CAVALCANTI, 2010; CAVALCANTI; CORRÊA; ARAÚJO FILHO, 2010). Neste contexto, uma paisagem pode ser definida como uma entidade ou fenômeno holístico e dinâmico com uma história única, que se materializa numa área que é percebida e, deste modo, relacionada com o observador em termos de entendimento e valorização (ANTROP, 2000).

Assim, podemos afirmar que a paisagem como simples elemento estético, definida puramente como aquilo que a vista alcança, ou como a expressão corpórea do fenômeno geográfico tem um sentido muito mais pitoresco, artístico, do que geográfico, científico. Na geografia, a paisagem vai além do estético, é também fenômeno geoecológico e cultural.

O GT-Paisagem partilha de uma concepção de paisagem que segue a tradição geográfica e sua reformulação sistêmica. Desta forma, buscamos trabalhar uma Geografia Física fundamentada no conceito de paisagem natural como geossistema.

Referências
ANTROP, M. Geography and Landscape Science. BELGEO. Special Issue: 29th International Geographical Congress. 2000. p.9-36.

BARROS, N. C. C. Quatro comentários sobre Paisagem e Região. In: SÁ, A.J.; CORRÊA, A.C.. (Org.). Regionalização e Análise regional: perspectivas e abordagens contemporâneas. 1ed. Recife: Editora Universitária da UFPE. 2006. p.23-32.


BESSE, J.M. Ver a Terra: seis ensaios sobre a paisagem e a geografia. São Paulo: Perspectiva. 2006. 108p.


CAVALCANTI, L. C. S. ; CORREA, A.C.B. ; ARAÚJO FILHO, J.C. . Fundamentos para o mapeamento de geossistemas: uma atualização conceitual. Geografia (Rio Claro. Impresso), v. 35, 2010. p.539-551. 


CAVALCANTI, L. C. S. Geossistemas do Estado de Alagoas: uma contribuição aos estudos da natureza em geografia. Dissertação (Mestrado em Geografia). Recife: UFPE. 2010. 132p.


RODRIGUEZ, J.M.M.; SILVA, E.V.; CAVALCANTI, A.P.B. Geoecologia das paisagens: uma visão geossistêmica da análise ambiental. 2.ed. Fortaleza: Edições UFC. 2004. 222p.


SANTOS, M. Metamorfoses do espaço habitado: fundamentos teóricos e metodológicos da geografia. 6.Ed. São Paulo: Edusp. 2008. 136p.


SANTOS, M. Território e sociedade: entrevista com Milton Santos. São Paulo: Perseu Abramo. 2001. 128p. 


SOCHAVA, V.B. O estudo de geossistemas. Métodos em questão, n.16, IG-USP. São Paulo, 1977. 51p.

VARENIUS, B. Geographiæ generalis:  in qua affectiones generales telluris explicantur. 1712.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Hierarquia de Geossistemas (Parte 4): Continentes, Subcontinentes e Países Físico-Geográficos

As paisagens terresteres são formadas principalmente pela interação de fatores climáticos e geológico-geomorfológicos. Como temos visto nessa série sobre a Hierarquia dos Geossistemas, podemos distinguir as paisagens simplesmente com base nos seus aspectos zonais (climas, biomas, etc.), como na classificação dos Cinturões Naturais, Zonas e Subzonas em sentido geral (lato sensu). De outro modo, também é possível distinguir a paisagem a partir de aspectos geológico-geomorfológicos, influenciados pela tectônica e os processos geomorfológicos regionais (denudação, agradação).

Num dos principais modelos russo-soviéticos para diferenciação de geossistemas regionais, A.G. Isachenko (1973, 1991) distingue as seguintes unidades azonais: continentes, subcontinentes, países físico-geográficos, domínios e subdomínios físico-geográficos.

Os continentes correspondem às partes emersas do globo e são bem conhecidos de qualquer um que já estudou um pouco de geografia. Num sentido físico-geográfico, podemos distinguir seis: África, América do Norte, América do Sul, Eurásia, Oceania e Antártica e contrastam com os oceanos: Ártico, Antártico, Atlântico, Índico e Pacífico. Os subcontinentes incluem grandes divisões continentais. Isachenko (1991. p.295) destaca para a Eurásia os seguintes: Europa, Ásia Setentrional, Ásia Oriental, Ásia Central, Sudoeste Asiático e o Sudeste Asiático (ISACHENKO, 1991).

Os países físico-geográficos correspondem à porções de um continente com a mesma tendência predominante dos movimentos neotectônicos (ISACHENKO, 1991). No Brasil, destacamos os dois brasis morfotectônicos de Saadi et al. (2005), separados pelo lineamento transbrasiliano (Fig. 1):
  • Brasil Amazônico: releveo geralmente inferior a 500m e tendência a apresentar uma morfologia plana a suavemente ondulada;
  • Brasil Extra-Amazônico: relevo com altitudes que geralmente superam os 500m, com tendência a apresentar um modelado bastante movimentado.

Figura 1. Dois Brasis Morfotectônicos.
Fonte: ETOPO1 com modificações.

Essa diferenciação se aproxima da classificação do relevo brasileiro de Aroldo de Azevedo (1949), que define o Planalto Brasileiro e a Planície Amazônica, destacando também a Planície do Pantanal e o Planalto das Guianas.
Contudo, os países físico-geográficos ainda podem ser subdivididos em unidades menores, denominadas domínios e subdomínios. Mas este será o tema da nossa próxima postagem.

Referências
AZEVEDO, A. O Planalto Brasileiro e o problema de classificação de suas formas de relevo. Boletim Paulista de Geografia, n.2 1949. p.42-53.

CAVALCANTI, L. C. S. Geossistemas do Estado de Alagoas: uma contribuição aos estudos da natureza em geografia. Dissertação (Mestrado em Geografia). Recife: UFPE. 2010. 132p.

ISACHENKO, A.G. Ciência da Paisagem e Regionalização Físico-Geográfica. Moscou: Vyshaya Shkola. 1991. 370p. Em russo.

ISACHENKO, A.G. Principles of Landscape Science and Physical Geographic Regionalization. Melbourne: MUP. 1973. 311p.